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A Tetralogia de Richard Wagner I

In Sem categoria on 23 de Março de 2012 at 10:52 AM

Analisar a Tetralogia não é tarefa fácil. Obra extensa de uma vida inteira, onde se propõe uma reformulação do conceito de ópera, drama e até mesmo de teatro – em termos arquitetônicos e acústicos – a Tetralogia é um monumento à música da segunda metade do século XIX. E talvez, seu crepúsculo.

Como escrevo para pessoas que se iniciam no universo maravilhoso da música clássica, indico aqui algumas gravações da tetralogia wagneriana;

A Tetralogia completa:

  • Clemens Klauss e o Bayreuther Festspiele – estupenda interpretação do grande maestro alemão, nos anos 50 e grande amigo e colaborador de Richard Strauss; vale a pena;
  • Sir Georg Solti e Wiener Philharmoniker & Wiener Stattsopernchor, Birgit Nilsson, Wolfgang Windgassen. Excelente, maravilhosa gravaçao do grande maestro Solti; plena de grandeur;
  • Karl Böhm e o Bayreuther Festspiele; gravaçao grandiloqüente, uma verdadeira cascata sonora, com Nilsson e Windgassen em plena forma, Böhm está fabuloso. Regência acurada e com um som muito rico;

Muitos poderão perguntar por que não acrescentei a gravação de Karajan e a Berliner Philharmoniker. Simplesmente porque ela é uma interpretação sui generis, necessitando de um cuidado maior.

Não será todo ouvinte que aceitará a visão de Karajan do ciclo do anel de Wagner.

O mestre de Salzburg resolveu dar um tratamento “cameristico” à obra; não que ele retire da partitura ou mexa na orquestração. A questão está no som. E o som de Herbert von Karajan é cameristico, dando ênfase ao drama que se desenrola no palco.

Sem dúvida, é a mais dramática leitura da Tetralogia. As emoções dos personagens estão presentes por todo o ciclo. Em cada momento da execução.

Karajan mostra sabedoria em escolher Helga Dernesch para o papel de Brünnhilde, em Siegfried e Oralia Dominguez para o papel de Erda, em Das Rheingold e em Siegfried.

Dominguez, grande contralto, não é exatamente uma voz wagneriana, porém ela está soberba como Erda e muito adequada para o som que Karajan quer produzir, de caráter intimista.

Jess Thomas é um Siegfried perfeito e Dernesch está fabulosa como Brünnhilde.

Diante de tanta inovação e originalidade, o Siegfried de Karajan não decepciona; surpreende, espanta-nos com sua inovação e refinamento.

Para ouvir a tetralogia necessita-se de disposição. E de peito, mas tem que ser peito de remador, como diria Vinicius de Moraes.

É obra para ser ouvidos já acostumados à música clássica.

Sua complexidade dramática é bastante grande. A distribuição dos papeis segue um esquema interessante:

Brünnhilde aparece nas três noites finais do ciclo. Já Siegfried somente nas duas últimas. Wottan aparece na véspera e nas duas noites seguintes. As filhas do Reno aparecem somente em Das Rheingold e no final, em Götterdämmerung, fazendo as vezes de coro.

Coro mesmo somente masculino e no Götterdämmerung. Fricka, a esposa de Wottan, aparece em Das Rheingold e em Die Walküre.

O engraçado é que das quatro noite do Anel, a primeira – já que Das Rheingold é considerado como uma véspera – Vorspiel – Die Walküre é a mais popular e a mais encenada isoladamente; talvez isso se deva à estória que ela encerra, cheia de dramaticidade, além de ser a obra mais dinâmica de todo o ciclo.

É muito interessante a gravação de Die Walküre que Wilhelm Furtwängler fez em 1954. Na verdade foi sua última gravação.

Com cantores como Martha Mödl e Ludwig Suthaus, a Die Walküre de Furtwängler nos dá uma idéia bem clara do que seria o Der Ring completo, caso o maestro vivesse o suficiente para realizar o projeto. Ficou como seu testamento fonográfico essa esplêndida, formidável e profunda leitura da Walküre.

Outra gravação digna de nota é a de Erich Leinsdorf regendo a London Symphony nos seus melhores dias. É realmente espantosa!

E quem é a Brünnhilde? Ninguém mais, ninguém menos do que Ela (!), Birgit Nilsson pela primeira vez como a filha de Wotan!! E que Brünnhilde!!

Sieglinde é vivida pela delicada Gre Browenstijn. É claro que Leonie Rysanek é estupenda e muito mais dramática, tanto na gravação de 54 com Furtwängler, quanto na gravação ao vivo, em Bayreuth, em 1966 com Karl Böhm. Mas Gre Browenstijn tem uma voz muito bem colocada, além de ser d’uma sensibilidade impar, o que lhe permite ir a fundo na personagem que interage com perfeição com o grande Jon Vickers, um grande Siegmund! Talvez um dos maiores depois de Ludwig Suthaus. Só não posso deixar de fazer uma menção muito honrosa ao grande Siegmund de James King, na gravação de 66 sob a batuta de Böhm em Bayreuth.

Mesmo com a dignidade de James King, Jon Vickers continua um assombroso Siegmund. Apaixonado! Viril. Heróico sem duvida!

O leitor pode optar por um Der Ring com um único maestro e um cast bastante homogêneo ou por um Ring diversificado, como se cada noite fosse uma opera independente.

E qual a diferença de uma visão da outra?

Quando você escolhe um Ring com um único maestro, tem a vantagem de sentir a coesão interpretativa, sonora e, obviamente, rítmica. É a leitura de um maestro, a sua ótica na integra numa obra de fôlego que é também a obra de uma vida inteira.

Já se o ouvinte prefere um Ring diversificado, tem a vantagem de provavelmente sentir cada noite com maior intensidade, as nuanças muitas vezes são ampliadas e ficam mais claras, já que não estamos lidando com um ciclo único onde o fator tempo é levado em consideração. Por exemplo, Furtwängler regeu Die Walküre como se não tivesse pressa alguma – e realmente não tinha – o que permitiu-lhe explorar mais a partitura e suas emoções mais sutis. O mesmo acontece com a gravação de Leinsdorf.

Die Walküre ficou tão famosa que, por assim dizer, se descolou do restanto do ciclo do Anel e passou a ser apresentada como uma ópera independente, avulsa.

Contendo situações não exatamente novas, mas com uma carga emocional digna de nota, Die Walküre acabou por ser firmar no cenário lírico; resultado: hoje é difícil alguém que não conheça pelo menos os acordes iniciais do inicio do III ato, conhecido como a cavalgada das Valquírias.

Se por um lado há o risco de uma certa vulgarização, por outro não pode haver melhor meio de divulgação de uma obra tão difícil como o Der Ring.

Pode-se dizer que foi graças à a cavalgada das Valquírias que o Anel ficou passou a ser conhecido fora dos meios wagnerianos e de iniciados em Bayreuth.

Uma das coisas que se precisa ter em mente quando tomamos contacto com o Anel é que ele foi concebido para condições especiais de acústica, visibilidade, técnica cenográfica e de iluminação. Tudo isso significa uma coisa: o Bayreuther Festspielhaus com seu recinto de orquestra invisível e sua sensação de hausto místico tão ansiado pelo compositor.

A obra precedeu o teatro, mas parece que, inconscientemente, ela foi composta para ele.

E é a perspectiva de Bayreuth que necessita ser compreendia pelo ouvinte de Der Ring.

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